We got lost.
É bom, por fim, saber que não há mesmo ninguem comigo.
Despeço-me e parto. Parto-me e os bocados espalhados de mim pelo meio de beatas mirradas sugados pela noite na beira da estrada. Faltam mãos nas luvas para me acenar e nem mais uns dedos no ar para mim. Nem uma pergunta. Uma aí ao fundo. Sim, vim sozinha. O outro senhor ainda mais longe. Sim, outra vez. Acabaram-se as perguntas.
Wednesday, 14 January 2009
Tuesday, 14 October 2008
não
Não digo bom dia. Acordo e não digo nada. Água. Repito o meu nome. Daniela. Sim à data de nascimento. O meu nome impresso em série antes de se colar a meia duzia de frascos vazios como iogurtes no supermercado. Arrasto e ajusto a cadeira, que podia ser de dentista pelo peso, para poder desmaiar à vontade seguindo indicações especificas da enfermeira indiana em passo de hipopotamos ao sol e sem poça. Obrigada. Concentro-me no cubo de açucar amarelo e seco na boca. Nos 500 euros que me cairam do dente dias antes e que por pouco não engoli. Trinco o açucar com os outros dentes. Fura-me a enfermeira gorda e eu saio por ai sem vontade. Não caio. Entro tarde. Não olho pela janela. Desenho nas horas que faltam uma parede cortina. Faço me de conta. Saio tarde. Apresento-me a estranhos sem vontade. Chove-me um bocadinho nos óculos e nos olhos. Não vejo razão nenhuma para que as coisas passem por mim e não me encham. Pães com manteiga e fiambre. Bifes. Casas vazias cheias de gente. Quartos sem janela. Espero pela semana que vem e pelos resultados por escrito. Com os intervalos de referência. Espero pelas cápsulas. Pelo xarope. Não digo boa noite. Durmo e nem sonho.
Tuesday, 30 September 2008
um caminho
Triste triste é no caminho de casa passar ao lado de uma conversa atravessada pelo vidro e pela esquina do MacDonalds. Por esta conversa não ter palavras que se ouvissem. Por ter gestos por letras e olhos e dentes de intenções. Pelo buraco de silencio que trazia à rua, como eu sempre que espreito pela porta que não abro nunca ao meu vizinho. Pela dor na minha garganta a marcar o início do Outono e o inverno demorado da minha voz. Pelo som das ondas nas cordas vocais do meu avô a caminho da India estar a caminho de se perder no caminho que levava tão pouco a chegar até mim que poderia até estar ao lado, mas não estou. Mas triste triste é que o caminho não mude. Que mude mude e não mude assim tanto. Que mudo mudo eu não sei ouvir.
Triste triste é que as pessoas parecem entender-se de qualquer maneira e eu não me faço entender que te entendo de maneira nenhuma.
Triste triste é que as pessoas parecem entender-se de qualquer maneira e eu não me faço entender que te entendo de maneira nenhuma.
Sunday, 31 August 2008
a mosca
Ando meio morta. Se fosse uma mosca ia contra os vidros dez vezes, voava rente ao chão e parecia perdida a grandes velocidades em direcções várias e muitas vezes contrárias.
Ainda que ontem tenha sido o primeiro, unico e ultimo dia de sol deste Verão e do passado, comprei uns óculos: negros, redondos e gigantes. Não tinha mais necessidade que a de querer ver-me ao espelho exactamente como me sinto.
Ainda que ontem tenha sido o primeiro, unico e ultimo dia de sol deste Verão e do passado, comprei uns óculos: negros, redondos e gigantes. Não tinha mais necessidade que a de querer ver-me ao espelho exactamente como me sinto.
Monday, 19 May 2008
sangue
'Já a algum tempo que ele quer pintar as lembranças de um pôr-do-sol. Vermelho como sangue. Não, era realmente sangue coagulado. Mas ninguem o veria do mesmo jeito. Qualquer outra pessoa iria pensar em nuvens. Falar delas fazia com que ele ficasse triste e irrequieto. Triste porque os humildes meios disponìveis para a arte nunca eram suficientes.'
Christian Skredsvig sobre 'O grito' de Edvard Munch
Christian Skredsvig sobre 'O grito' de Edvard Munch
sem título
Se te serve de consolo nunca quiseste dizer as coisas que lhe disseste na altura em que o fizeste.
Se te serve de consolo nunca fizeste as coisas que quiseste porque não pudeste.
Se te serve de consolo nunca estragaste nada porque nem sequer tocaste.
Esquece que fizeste e pudeste e tocaste.
Se te serve veste-o. Aperta-o. Fecha-o.
A tua pele um outro corpo.
Se te serve veste-o. Aperta-o. Fecha-o.
Se não te serve despe-o. Solta-o-o. Deixa-o.
A tua pele um outro corpo.
Se não te serve despe-o. Solta-o-o. Deixa-o.
Esquece que fizeste e pudeste e tocaste.
Se te serve de consolo nunca fizeste as coisas que quiseste porque não pudeste.
Se te serve de consolo nunca estragaste nada porque nem sequer tocaste.
Esquece que fizeste e pudeste e tocaste.
Se te serve veste-o. Aperta-o. Fecha-o.
A tua pele um outro corpo.
Se te serve veste-o. Aperta-o. Fecha-o.
Se não te serve despe-o. Solta-o-o. Deixa-o.
A tua pele um outro corpo.
Se não te serve despe-o. Solta-o-o. Deixa-o.
Esquece que fizeste e pudeste e tocaste.
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