Wednesday, 5 December 2007

full contact

À mesa com colegas de trabalho, um deles ameaçou distraidamente raspar o braço nalguma parte do meu corpo e simultaneamente dirigir a sua bochecha esquerda para me cumprimentar, quando eu automaticamente dava a direita. Tais movimentos desencadearam em mim o mata ou morre em batalha campal: starring o inimigo versus Danielson, em posição de frango no espeto com perna semi levantada. Mais rápida que a sombra do Lucky Luck esquivei-me de braços pernas bocas e palavras e voltei à minha posição inicial, primeira no ballet, pés no chão e segura. Livre de contacto.

Depois deste breve episódio de luta livre meets dança contemporânea fui bombardeada com opiniões, gargalhadas e aplausos sobre o novo estilo de movimento acrescentada ao mundo das artes marciais e de palco. Este meu excelentissimo colega começou a pedir permissão para cruzar o caminho comigo ou desculpa por ter cometido esse sacrilégio que é o eventual pousar de pele na manga do meu casaco.

Epá, e uma pessoa fica um bocado chateada quando o publico não percebe a sua arte.

A partir daí tornei-me mais atenta: não há prazer em mostrar coisíssima nenhuma ao espectador insensível. Um mês depois, num bar empacotado de gente, os meus colegas levaram-me pela mão para não nos perdermos e eu não disse nada. Na mesma noite até deixei que um deles me dirigisse, mão na cintura, de uma sala para outra. E tudo isto como se fosse normal tocarem-me na cintura ou darem-me a mão quando entendem. Estava, aparentemente, tudo bem. Standard. Ameno. Manso.

Mas hoje enquanto trocava e-mails com um amigo para nos pouparmos à morte via tédio, eu em busca dos metros quadrados perdidos para encaixar salas de aula, ele em busca sabe deus do quê para acabar a tese, sai-se com esta:

"Gaita mulher, aceita o bom, leva-o: o beijo e o bom e tudo o demais. Tens mais energia reactiva empacotada em ti do que meia revolução do proletariado russo!"

Epá, e uma pessoa não só fica chateada, como cora e fica preocupada. Agradeci o detalhe de meia revolução.


Acho que com esta me tornei, o ficialmente, alérgica ao toque. E não só ao vivo e a cores, como ao toque virtual! Não é para todos, não. Um estúpido de um beijo. Nem sequer daqueles que se dão normalmente, mas dos que se dizem normalmente. Normalidade: zero. Endireita-se novamente o Danielson e vai de bombardear o desgraçado com wax in wax out, mão direira, mão esquerda no teclado.


Acho que sinto falta de outras mãos. Falta de outros beijos. Falta de outro toque.
Acho que estou na fase bola de sabão: se me deixo tocar acho que me desfaço em ar.
E eu não me quero desfazer no ar. Uma pessoa não deve desfazer-se em ar por qualquer um.