Sunday, 2 December 2007

silêncio

Já acabou mas eu ainda olho para todos os lados como se alguém procurasse por mim ou eu estivesse simplesmente com medo do escuro.

Não é só a beleza de cem pontos iluminados num pano escuro de fundo, é também a dor de tirar sangue muito devagarinho. A Teresa Salgueiro a soprar palavras em latim: o corpo negro na cara branca. Uma parede ao fundo. Pedras de sussurros, ecos e gritos. Depois de os tempos todos de silêncio e de noite, a guitarra que esperou o tempo todo antes.
§

Depois foi entrar no cinema de olhos fechados. Tocar nas marionetas. No vermelho. No branco.
(esperar pelo azul)
Depois do depois não sei. Uma voz grande, enorme, gigante a chorar. Muito sangue. E mais lágrimas a cair no palco. Mesmo à frente, pelo meio. Ao fundo a parede a chorar alto, sem cair. Cem pontos de luz com lágrimas a cair das bocas, pelos dedos, pelos arcos, pelos baquetes, pelos pedais. E uma tristeza grande, enorme, gigante à solta na sala. A entrar por todas as partes de todas as pessoas. Pelos ouvidos e pelas bocas abertas de espanto. Pela pele.
(Até aqui, o público civilizado; a tossir nas pausas, a esperar pelo fim para entrar ou sair, a contar para não errar nos aplausos)
Quando se ouviu a ultima lágrima cair no palco, a multidão chorou como pôde: de pé e pelas mãos.

Lacrimosa pela morte de um amigo.
Luto pela morte de Véronique.
Um luto azul. Azul.

O amigo que não morreu a chegar e a chorar também de pé.
Os meus olhos abertos.
Sou um corpo sem sangue.


Zbigniew Preisner
1. Silence, night and dreams com Teresa Salgueiro
2. A suite of film music: Dekalog, La double vie de Véronique, Bleu, Blanc, Rouge, Requiem for my friend, com Elzbieta Towarnicka

Barbican, 2 Dezembro 2007