Wednesday, 6 February 2008

londres-lisboa

Gostava de voar como qualquer um. Como qualquer pardal ou periquito. Como uma gaivota ou uma andorinha. Como uma águia ou um corvo. Uma borboleta. Uma abelha ou uma desgraçada de uma mosca. Mas à falta de melhor adoro olhar pela janela do avião e esperar pelo sol.
Gosto quando esta cinzento, e depois o limite das núvens. Um espaço de minutos com turbulencia em que eu não peço chá, com medo de me queimar. E por fim, flutuar por cima das nuvens.
Gosto quando as nuvens são como pasta de papel empapada em água. Amolecida. Uma camada inteira de algodão doce como linha ( irregular, às ondas) de horizonte. E o sol muito forte e amarelo torrado por trás.
Gosto de olhar para a janela e fixar o olhar no buraquinho do vidro duplo( sera um tipo de plastico, de certeza). E vê-lo ir criando risquinhos de dentro para fora como se a X-acto. Encher a janela, se o voo é longo, de estrelas de gelo. Gosto de pensar que lá fora estarão cerca de 50 graus negativos, e que o sol me faz desviar o olhar para o ceu azul e para as núvens.
E depois gosto de aprender coisas parvas com a viagem à custa dos companheiros abstractos de viagem; como por exemplo: que passam vários aviões por baixo, ao lado e por cima de nós e deixam um rasto de fumo branco que se vai confundindo com as nuvens no infinito. E que às vezes esse fumo branco passa a negro e faz um traço bem demarcado a carvão no céu. O que faz com que por um lado, a minha janela se vá tornando numa pintura maravilhosa de se ver nascer, e por outro, que eu quase grite para que a rapariga sentada ao meu lado veja o mesmo que eu e não me considere louca, e com que a rapariga sentada ao lado desta, engenheira mecânica, me descanse avisando que o degrade acontece não porque o avião vizinho vá cair, mas porque alguma transformação quimica, envolvendo condensação e velocidade do ar, acontece.
Eu sentada com um livro e uma revista de cidades. A câmara dentro da bolsa, dentro da mala, dentro do compartimento superior que se deve abrir com cuidado, não vá o equipamento ter-se deslocado do seu lugar.
E eu, sem caneta. Sem papel.