Saturday, 10 November 2007

antes e depois

Antes do Halloween, perto de Hackney num bar usualmente de strip, havia uma festa.
Nesta festa, muitos gays, dois ou três deles em cuecas, e uma miuda com mamilos de tecido e penduricalhos socializavam com o poste ao lado do Dj. Todos fixavam um ponto no horizonte - três palmos acima do meu - como se fossem bailarinos clássicos. Eu arranjei uma sombra loira alemã, amiga dos amigos, para dançar. Os amigos desapareciam de tempos a tempos com amigas de outros amigos. Havia uma luz forte vinda de uma câmara de filmar. Ao toque da luz as pessoas tornavam-se parábolas delas mesmas. Riam mais, sorriam mais, agarravam-se com mais força aos pares aos postes às mamas e aos lábios. Eu permaneci ao fresco de um leque de um amigo gay. Não desci as escadas para onde se desaparecia. De vez em quando fechava os olhos e era só eu.

Depois do Halloween, em Hackney num apartamento de amigos de amigos, havia outra festa. Puz um chapéu de bruxa e vesti o meu unico vestido preto. Para equilibrar desenhei uma linha a unir as sobrancelhas e apanhei o autocarro. A sala tinha duplo pé direito. Na cozinha, sopa verde e sopa laranja. Rodelas de limão, lima, laranja, em fila. Garrafas verdes, roxas, vermelhas, brancas, transparentes, laranja. Pringles alinhadas em círculo. Um Dj morto vivo a um canto e o guitarrista dos Jesus and Mary Chain na mezannine de volta das super 8 e das bobines a projectar filmes mudos a preto e branco na parede alta e branca do outro lado. Era o pai do filho da rapariga que falava comigo com um sotaque do Porto. Eu, uma bruxa posh lisboeta enturmei-me com ela e o seu amigo também português com um copo de Martini nas mãos. Ele explicava pela lei das probabilidades todos os porquês e porque nãos das chegadas e das idas, o antes, o durante e o depois de todas as fases. Que pela minha conversa eu teria uns 26 e ou regressava no máximo em cinco anos ou arranjava o principe william para vir comigo ou como razão para ter uma hipoteca. Apresentou-me um Catalão com um macaco azul e boina, por ser o disfarce mais barato de Camden, com quem eu pratiquei o pouco vocabulário que tinha. Ele ia gabando o meu nível de catalão ao meu amigo. Eu achava que tinha sido preciso levantar voo de Barcelona para conhecer especimes interessantes. A meio da conversa o português informa-me do estado civil do amigo: livre. Engoli em seco. Depois de falar aos bocados por três linguas diferentes, o sabor da vodka começou a inundar o meu cérebro e à laia de afiar as unhas, cuspir fogo ou pegar na vassoura e voar, arrastei o catalão para o meio do grupo ao lado onde o vocalista dos Cure, que mais parecia o Howard Stern, socializava com o namorado vampiro e a amiga viuva negra. À primeira oportunidade e para resistir à tontura apresentei-o à viuva negra loira e voei para a casa de banho. Depois de uma hora numa fila de bruxas, piratas, o muro de berlim e um drácula, o mecâncico já trocava palavras salivadas com a viuva sueca, ja não haviam pringles em circulo mas linhas brancas ao canto da mesa. Respirei fundo e fui para a paragem do autocarro com o meu amigo. Quando chegámos lembrei-me que não tinha passe e deixei-o com outras duas amigas à espera.

Fui de ambas as festas para casa a pé. Uns cinco graus. Uns 40 minutos. Um monte de gente em todas as portas de todos os bares. Já perto de casa dois amigos acabavam a noite equilibrados pelos braços nos ombros um do outro. Um deles fixou o olhar na minha mono sobrancelha e não muito alto disse:
you are the most beautifull thing that passed through here today
Foi o meu primeiro elogio em terras de vossa magestade. Agradeci sinceramente e fui os restantes 4 minutos num passo mais ligeiro e com um sorriso nos lábios.